CAIPIRA, A VERDADEIRA MÚSICA DE RAIZ
VI - A MÚSICA E SEU REGISTRO EM DISCO
Até 1928, percebe-se a ausência, praticamente
total de música caipira nos catálogos das gravadoras. Tudo fruto de uma intolerância
urbana, existente nas grandes capitais, em relação à música caipira. Por esse motivo,
somente em 1937, o clássico do século da música rural, Tristezas do Jeca, foi gravado
por Paraguassu, com o selo Columbia (Continental, a partir de 1947), mesmo tendo sido
composta por Angelino de Oliveira, em 1925. Existiam, à época, tres gravadoras no
Brasil: Odeon, Victor e Columbia (esta em São Paulo).
Colocada a dificuldade, abre-se o espaço para um curioso e importante depoimento,
extraído, na íntegra, do livro "Capitão Furtado - Viola Caipira ou
Sertaneja?", de J. L. Ferrete, publicado pela FUNARTE em 1985, que dá bem a idéia
de como a música caipira iniciou sua trajetória no mundo fonográfico, pelas mãos de
Cornélio Pires:
Estando em São Paulo, onde também se encontrava instalada a sede de uma das três
mencionadas gravadoras - a Columbia, representação local da Byington & Company -,
Cornélio Pires não teve escolha senão optar pela que lhe propiciava maior proximidade.
Por incrível que pareça, no entanto, ninguém falava português inteligível na Columbia
da Byington & Company. O diretor era americano - Wallace Downey - e só com ele se
tratava negócios em fase preliminar. Cornélio soube que seu sobrinho Ariovaldo já
estava no terceiro mês de aulas de inglês e decidiu valer-se dele como possível
intérprete. "Dá pra você descalçar as botas?" perguntou-lhe, nesse sentido
atual da "dá pra você quebrar o galho?". Ariovaldo respondeu-lhe: "Olha,
quem não arrisca não petisca, eu vou até lá. Se der pra me entender com o homem, muito
bem! Se não der, a vergonha maior é dele, que está aqui em nossa terra e não entende o
que a gente quer com muito esforço chegar a expressar".
Chegava ao fim o ano de 1928 quando isto ocorreu. E a conversa entre Ariovaldo e Wallace
Downey deu certo. Iria, aliás, resultar em algo mais importante no destino do futuro
Capitão Furtado, mas este já é um assunto para as próximas linhas.
Downey encaminhou Cornélio Pires ao proprietário da empresa, Byington Jr.. Este, para
não fugir à regra geral do preconceito quanto ao não-artístico, rejeitou a
proposta de Cornélio Pires para que gravassem discos com material caipira autêntico em
seu selo. "Não há mercado para isso, não interessa". Cornélio insistiu:
"E se eu gravar por conta própria?" Aí Byington Jr. tentou opor dificuldades:
"Bem, nesse caso você teria que comprar mil discos. Quero dinheiro à vista, nada de
cheque, e se o pagamento não for feito hoje mesmo, nada feito". Era uma forma,
nota-se, de descarte peremptório ou, em outras palavras, propostas de quem não quer
mesmo fazer negócio.
Ariovaldo Pires jamais pressentiu nessa atitude de Byington Jr. qualquer intenção
malevolente. Ao contrário: "Byington gostava muito de meu tio - esclarecia ele - e
só queria evitar-lhe prejuízos na certeza de um empreendimento (ou investimento)
malsucedido , Essa foi, na verdade, a intenção".
Cornélio Pires fez com Byington Jr. o cálculo de quanto custariam mil discos e saiu. Foi
à procura de um amigo na rua Quinze de Novembro (centro de São Paulo), um tal de Castro,
e pediu-lhe dinheiro emprestado. Retornou logo em seguida à sede da empresa e, entrando
na sala de Byington Jr., jogou sobre a mesa deste um grande pacote emaçado em jornal.
"O que é issso?", perguntou-lhe Byington espantado. "Uai, dinheiro! Você
não queria dinheiro?", respondeu Cornélio. Byington abriu o pacote e não
disfarçou seu assombro: "Mas aqui tem muito dinheiro!". "É que, ao invés
de mil discos, eu quero cinco mil", explicou Cornélio Pires.
Meio aturdido, Byington Jr. tentou convencê-lo de que cinco mil discos era muita coisa,
era "uma loucura". Naquele tempo não se faziam prensagens iniciais em tais
quantidades nem para artistas famosos! Cornélio, porém, foi mais além no espanto em que
deixou o dono da gravadora: "Cinco mil de cada, porque já no primeiro suplemento vou
querer cinco discos diferentes. Então, são 25 mil discos".
Deixando de lado a perplexidade e encolhendo os ombros, Byington Jr. mandou chamar alguns
funcionários e pôs-se a contar o dinheiro. Passado o recibo, Cornélio Pires entrou sem
rodeios no assunto: "Bem, agora eu é que vou fazer minhas imposições. Quero uma
série só minha. Vou querer uma cor diferente: o selo vai ser vermelho. E cada disco vai
custar dois mil réis mais que seus sucessos. Mais ainda: você não vai vender meus
discos, só eu poderei faze-lo". Byington Jr. deu uma ligeira risada, como que
querendo dizer: "Mas, também, quem é que vai querer comprar seus discos?!". E
partiu-se para a produção e prensagem. Os discos ficariam prontos mais ou menos por
volta de maio de 1929 - no cálculo de Ariovaldo Pires. Como ele passou a ser empregado da
Byington & Company (conforme veremos a seguir) nessa época, "mas só foi
registrado alguns meses mais tarde, em 7 de agosto de 1929", acredita que o mês de
lançamento tenha sido maio.
A série particular de Cornélio Pires (pioneira, ademais, no campo do hoje chamado disco
independente ou alternativo) iria sair do jeito que tinha sido combinado: numeração
identificável diferente (começando de 20.000, enquanto a Columbia propriamente dita
seguia a série 5.000) e selo vermelho (ou "cor de vinho", como prefere José
Ramos Tinhorão). O selo, não obstante, conservava a marca Columbia com todas as
características particulares dessa etiqueta, fazendo presumir que Byington Jr. não tenha
aberto mão da prerrogativa de evidenciar o fabricante. Os cinco discos iniciais da
série, além disso, estavam divididos entre o humorístico e o "folk-lórico"
(sic), tendo apenas Cornélio na interpretação.
desastre comercial que Byington Jr. esperava não ocorreu. Ao contrário: Cornélio Pires
saiu em dois carros na direção de Bauru, fazendo do automóvel de trás uma verdadeira
discoteca, tendo por intenção, antes, parar em Jaú. Ao chegar a esta cidade, todavia,
já tinha vendido os 25.000 discos que transportava consigo! Teve de telegrafar para
Byington e pedir-lhe uma nova prensagem a ser distribuída em Bauru.
A notícia da existência dos discos caipiras de Cornélio Pires no interior do estado
alvoroçou o interior paulista, de Jundiaí a Assis, de Sorocaba a São José do Rio
Preto. Todos queriam essas gravações, mesmo com preço dois mil réis mais alto. O
próprio Byington Jr. reconheceu que havia errado em seus prognósticos e, desenxabido,
propôs ao patrocinador da série que sua empresa distribuísse os discos. Muitas lojas da
capital os estavam reclamando insistentemente e havia gente que tentava comprá-los na
fábrica. "Tio Cornélio era mais idealista que comerciante", contou-nos
Ariovaldo. "Após a primeira coleção de cinco discos, autorizou a distribuição
destes e dos demais por Byington".
Mais adiante, Cornélio Pires produziria outros 43 discos para sua série (que terminaria
em meados de 1930 no número 20.047), não só fazendo uso de artistas amadores ou já
profissionais do interior - por exemplo: Sebastião Arruda, Mariano e Caçula, Arlindo
Santana, Paraguassu (escondido por trás do pseudônimo de Maracajá), Raul Torres
(disfarçado como Bico Doce), Zé Messias e Luizinho -, como também revelando, entre
outros, um gênero tipicamente caipira só conhecido em seu habitat: a moda de viola.
Instaurava-se no Brasil, deste modo, a era do disco caipira. Velhos tabus caíram por
terra e antigas barreiras preconceituosas vinham abaixo, ao menos por enquamto. Mas, 1929
foi apenas o começo de alguma coisa que se plantava artisticamente, em especial a partir
do interior das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. Havia muito a ser feito e o
caminho a percorrer irar se mostrar longo. |
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APRESENTAÇÃO
I - INTRODUÇÃO
II - A ORIGEM DA MÚSICA
III - A ORIGEM DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA
IV - OS INSTRUMENTOS MUSICAIS
V - O INÍCIO DA DIVULGAÇÃO
VI - A MÚSICA E SEU REGISTRO EM DISCO
VII - O RÁDIO NA DIVULGAÇÃO DA MÚSICA
RURAL
VIII - ALGUNS DOS VERDADEIROS DESBRAVADORES
IX - RESUMO DO RESUMO
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