CAIPIRA, A VERDADEIRA MÚSICA DE RAIZ
V - O INÍCIO DA DIVULGAÇÃO
Cidade e campo: duas economias diversas e
interdependentes. Nem o homem do campo pode prescindir das modernidades industriais, nem o
homem da cidade pode prescindir da lavoura e criação. Se existem motivos para considerar
entristecedora a situação das populações urbanas (saneamento deficiente, habitações
insuficientes e de qualidade inferior, dificuldade de empregos, violência, drogas, etc.),
também no campo, salvo exceções, os métodos ainda são primitivos. Porém, o homem do
campo na Brasil soube sobreviver às custas de sua própria resistência física, preso a
um sentimento enraizado de amor à terra, sem nunca ter renunciado às suas tradições. E
são essas tradições, como a linguagem própria, o vestuário típico e as tendências
culturais, que contribuem decisivamente para a criação de uma espécie de música
inconfundível. E é desse tipo de música que estamos falando. Não devemos confundir
música rural com música - digamos assim -"brega". Esta última é o resultado
do aproveitamento de dois filões (sem que haja obrigatoriedade de misturá-los) de
manifestação musical tradicional (a música rural e a música internacional, entendida
em toda a sua extensa variedade) e se destina, primordialmente, a satisfazer às
exigências, gostos, anseios (ou o nome que se queira dar) das populações carentes, que
habitam a periferia das cidades. E poder-se-ia travar um embate filosófico interminável
sobre a questão. Não é este nosso intuito. Queremos falar daquele outro tipo de
música, que guarda profunda relação com a tradição que a gerou: a música rural, ou
música caipira. E passaremos a tratar do assunto, com o foco no século XX.
Já deixamos claro, anteriormente, que a música rural abrange vasta extensão
territorial, pois assim é o Brasil, e que ela pode ser entendida delimitando-se sua área
de ocupação. Desta forma, vamos limitar este resumo à música rural que envolve,
principalmente, os estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. E, mais ainda,
centraremos nosso foco no estado de São Paulo.
A partir de São Paulo e seu interior, em especial, definiu-se o tipo característico
denominado "caipira", espécie de caboclo diferente dos oriundos das regiões
norte e nordeste. Na própria capital, no início deste século, pouco se sabia sobre este
personagem interiorano, além de algumas facetas mais características, desconhecendo-se
suas danças, músicas e poesias típicas.
Foi Cornélio Pires (1884 - 1958), natural de Tietê, o primeiro a mostrar interesse em
divulgar o caipira e sua criatividade autêntica, na capital. Em 1910, encenou na
Universidade Mackenzie um velório típico do interior paulista. A encenação incluía
interpretes autênticos de cururu e cateretê, além de cantadores e dançadores. A
apresentação foi um sucesso e abriu espaço para outras, que se seguiram, graças a
obstinação de Cornélio. E assim, quatro anos mais tarde, proferiu diversas palestras na
capital, sobre a matéria, acompanhado de exemplos vivos desta arte desconhecida,
mostrando o que já se espalhava por outras regiões além das fronteiras do estado,
caracterizando, enfim, uma música e uma poesia paulistas, diferente de tudo o que se
criava na capital, que, na verdade, nada mais fazia do que absorver o que vinha do Rio de
Janeiro e, em última instância, da Europa, passando por aquele importante centro
cultural.
Em 1922, realizaram-se no Rio de Janeiro as festividades de comemoração do primeiro
centenário da Independência do Brasil e entre tantas atividades programadas, Cornélio
foi escalado para promover diversas manifestações da cultura caipira, sendo-lhe
reservado espaço seleto para apresentação de suas palestras e exibições. Foi, no
mínimo, curioso que se lhe reservasse o auditório da Associação Brasileira de Imprensa
para tal, demonstrando o interesse que seu conhecimento sobre este tipo de cultura tinha
alcançado. E suas apresentações, com muitas novidades e curiosas revelações,
alcançaram êxito surpreendente, neste ano em que se realizou a tão lembrada Semana de
Arte Moderna. Foi a oportunidade que o Rio de Janeiro teve, de conhecer o que séculos de
aculturação índio-portuguesa produziram no interior de São Paulo. |
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APRESENTAÇÃO
I - INTRODUÇÃO
II - A ORIGEM DA MÚSICA
III - A ORIGEM DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA
IV - OS INSTRUMENTOS MUSICAIS
V - O INÍCIO DA DIVULGAÇÃO
VI - A MÚSICA E SEU REGISTRO EM DISCO
VII - O RÁDIO NA DIVULGAÇÃO DA MÚSICA
RURAL
VIII - ALGUNS DOS VERDADEIROS DESBRAVADORES
IX - RESUMO DO RESUMO
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