CAIPIRA, A VERDADEIRA MÚSICA DE RAIZ
III - AS ORIGENS DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA
O Brasil do descobrimento tinha, ao que se
supunha, uma população indígena de cerca de dois milhões de habitantes, com os quais
teriam os descobridores de se defrontar, no processo de povoação ou colonização
(discussão infindável). O certo é que, de uma ou de outra forma, a exploração das
riquezas da terra estava na mente dos descobridores, visto que sua civilização vivia do
comércio e, para tanto, a convivência com os silvícolas se impunha. Até mesmo porque,
para o estabelecimento de uma economia de subsistência era necessário envolvê-los e aos
seus relativos conhecimentos de plantio. Assim, deste relacionamento, surgiram técnicas
comuns de formação de lavoura, desenvolvimento de engenhos e fazendas, voltadas, além
da subsistência, para a exportação.
Na manifestação musical, apesar da influência do colonizador, marcou presença a
cultura indígena, através dos urucapés, guaús, parinaterans e tocandiras, de origem
guaicuru, xavante, guarani ou bororo. Segundo a história, Anchieta, o Apóstolo do
Brasil, teria se valido de uma dança religiosa indígena, o caateretê, para tentar
convertê-los ao cristianismo. Teria, ainda, introduzido esta dança nas festas de Santa
Cruz, Espírito Santo, Conceição e Gonçalo, num hábito que até hoje persiste nos
estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Pará e
Amazonas, sob a nomenclatura de catira, cujos elementos rítmicos da viola, do sapateado e
do palmeado, lhe foram indexados ao longo dos anos. Sendo cantado em versos, o caateretê
propiciava o surgimento de cantores e trovadores populares.
Quando os portugueses e negros proporcionaram o surgimento de outras manifestações
musicais oriundas de suas próprias culturas, já existiam por aqui gêneros resultantes
do cruzamento cultural português-índio. Os primeiros índios, com os quais os
portugueses travaram conhecimento foram os tupis, que se espalhavam, com suas oito
famílias e dezenas de línguas e dialetos, do Rio Grande do Sul ao seu homônimo do
Norte. Assim, desde o século XVI, os herdeiros deste tipo de cruzamento étnico, mestiço
de brancos e índias, apesar das controvérsias, pode ser definido como caboclo (ou
cabocolo, como se dizia na época). E esta controvertida figura, descrita como indolente e
pouco relacionado com os colonos, ganhou esta pejorativa conceituação, que não condiz
com a realidade.
Já na segunda metade do século XIX, calcula-se que existissem no Brasil menos de 150.000
índios puros, deduzindo-se que o restante, ou foi exterminado pelo colonizador/povoador
ou se hajam misturado ao branco e ao negro, ensejando uma nova espécie humana
culturalmente distinta. Desta miscigenação surgiram grupos distintos, sendo que entre os
caboclos concentrados nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, inúmeros traços de
semelhança física e cultural são notáveis, generalizando o que se convencionou chamar
de caipira, uma denominação tipicamente paulista. Para muitos filólogos, caipira é
expressão de etimologia desconhecida, porém, segundo Silveira Bueno, o vocábulo é
resultado da contração das palavras tupis caa (mato) e pir (que corta), resultando em
"cortador de mato". Para Câmara Cascudo, caipira é o "homem ou mulher que
não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se
ou apresentar-se em público". Inquestionavelmente, este é um tipo rural, caboclo,
mas no sentido pejorativo, depreciativo. Assim também se posicionou Monteiro Lobato ao
criar seu personagem Jeca Tatu. Como o que nos interessa não são os estereótipos e sim
a origem da música rural, achamos que basta o que já foi dito, para situar o ilustre
visitante deste site no ambiente rural, fonte de nossa música de raiz.
Em muitas citações do século passado, sobre o interior do Brasil, comentava-se sobre
diversos tipos de festas musicais típicas, bem como sobre manifestações musicais
associadas aos condutores de boiadas ou tropeiros. Essas cantigas e desafios, sempre em
tom de alegria, consistiam em interpelações de um boiadeiro para outro e eram uma
derivação de dois gêneros tipicamente portugueses. A cantiga (do latim canticula
cançãozinha), remonta ao século XIII, com acompanhamento de instrumento de cordas,
chamado no século XVIII de "poesia cantada", formada de redondilhas ou de
versos menores que estas, dividida em estrofes iguais, com andamento melancólico e
concentrado. O desafio, sempre representou em Portugal, um gênero musical baseado no
canto de improviso e alternativo, com outras pessoas provocando o desafiante, até que se
proclamasse o vencedor. Este tipo de arte, muito divulgado entre nós, caindo no agrado
popular, acabou se alastrando pelo país, de norte a sul.
Já no século passado, muitos narradores testemunharam várias formas de gêneros musicas
oriundos do campo. Assim são as descrições sobre as "vésperas de São
Pedro", quando todos que possuíam um Pedro na família se sentiam na obrigação de
acender uma fogueira diante da porta e soltar rojões, disparar pistolas, morteiros ou
mosquetes. Tratava-se, também, de uma manifestação adaptada da tradição portuguesa,
acompanhada de acordeona (harmônica sanfona), viola (caipira, com certeza) e
machete (antecessor de nosso cavaquinho). À dança cantada dava-se o nome de cururu (ou
caruru), cujo acompanhamento instrumental se fazia através de uma viola e de um pandeiro
basco. Esta manifestação ainda existe em alguns locais no interior de Mato Grosso,
Goiás e São Paulo e é uma espécie de desafio, com a diferença que o provocador fica
de fora, instigando os contendores ao litígio, até que saia um vencedor. Vê-se, pois,
que mesmo modificadas e adaptadas por vezes às tradições indígenas ou caboclas, a
influência portuguesa era notável.
No início do século XX, a literatura sobre o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país
começa a mencionar danças como o recortado (derivado do cateretê), o fandango (de
origem ibérica e com várias coreografias) e a toada (forma livre de cantiga, ligada à
pura forma musical e não à disposição poética). Era a força da música rural,
criativa, evolutiva, diversificada, contrapondo-se aos modismos musicais das capitais,
sempre importados do exterior, principalmente da Europa. |
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APRESENTAÇÃO
I - INTRODUÇÃO
II - A ORIGEM DA MÚSICA
III - A ORIGEM DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA
IV - OS INSTRUMENTOS MUSICAIS
V - O INÍCIO DA DIVULGAÇÃO
VI - A MÚSICA E SEU REGISTRO EM DISCO
VII - O RÁDIO NA DIVULGAÇÃO DA MÚSICA
RURAL
VIII - ALGUNS DOS VERDADEIROS DESBRAVADORES
IX - RESUMO DO RESUMO
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